domingo, 26 de abril de 2009

35 anos após a Revolução dos Cravos

Não escrevo este post no dia 25 de Abril mas sim no dia 26!
O dia de ontem foi muito importante para mim bem como há 35 anos mas por razões diferentes.
Ironia do destino!
Há 35 anos deu-se o início do retorno à Metrópole e ontem retornei a casa depois de uns dias muito violentos!
Ainda estão a ser, mas o conforto de casa é outra coisa!
Não quero dizer que não tenha sido confortavelmente tratada por todos os que me rodearam, foram Fantásticos e estou-lhes muito agradecida!
Curiosamente já estava pronta para sair, cadeira de rodas ( obrigada Paulinha!) activada, chega a Alice, com os seus caderninhos para poder concorrer ao Curso das Novas Oportunidades, para uma ajuda!
Ora, o dia de ontem 25 de Abril de 2009, 35 anos após a REVOLUÇÃO DE ABRIL, deu-me para reflectir sobre todo o processo de desenvolvimento da sociedade portuguesa e decidir que continuarei a lutar, como fizeram já meus bisavós, avós e pai, pelos valores da democracia mas também pela dignidade e respeito por um povo que, hoje, de novo acredita, cegamente, em situações institucionais, que não são mais do que farsas!
E este acreditar, nestas falsas oportunidades, advém, mais uma vez, da falta de literacia do nosso povo!
Reflicto mais uma vez no papel importante que os professores têm na sociedade e que lamentavelmente, nestes últimos anos, nos está a ser renegado!
Mas porque acredito no que faço e na importância da minha profissão continuarei a trabalhar com os meus alunos de forma a ensinar-lhes a pensar com a ajuda da Matemática e jamais lhes faltarei à verdade sobre o seu nível de proficiência na disciplina!
Gosto de dar oportunidade mas não de uma nova oportunidade, que sempre me soou a falso!


Raízes
( excerto )

Uma vez um homem deitou-se, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e qunado tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.
_ Veja o que me está a prender a cabeça.
A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não desgrudava do chão.
_ Então mulher? Estou amarrado?
_ Não, marido, você criou raízes.
_ Raízes?
Já se juntavam as vizinhanças. E cada um puxava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:
_ Corta!
_ Corta, o quê?
_ Corta essas raízes ou lá o que é...
A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou.
_ Dói-lhe?
_ Quase nem. Porquê pergunta?
_ É porque está sair sangue.
Já ela desistia, arrumava o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém o destroncasse dali. Me ajudem, suplicou. Juntaram-se uns tantos, gentes da terra. Começaram a escavar o chão, em volta.Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.
(...)

Mia Couto, Contos do Nascer da Terra


E o meu dia de ontem foi-se enchendo, enchendo de recordações e ganhando mais e mais forças!


Capitães de Abril, de Maria de Medeiros




"Vinte e Zinco" a peça de Mia Couto

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